Professores inovadores e o uso de tecnologias educacionais

Uso do computador nas escolas é alvo de debate

Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Teóricos das mais variadas escolas do pensamento argumentam que estamos vivendo a chamada era do conhecimento. Pregam que nunca, em qualquer outro momento de nossa História, a humanidade teve acesso tão rápido e facilitado a dados, estatísticas, pesquisas e outros materiais e instrumentos que representam a ponta final da produção de saberes.

É bem verdade que é possível questionar que conhecimento é esse (fragmentado ou contextualizador? Alienante ou crítico?) e de que forma está sendo distribuído e socializado (contempla os diferentes segmentos da sociedade?). Mas negar essa realidade parece tolice. E, ao adotar a idéia da sociedade da informação como uma referência, especialistas e os sistemas educacionais do país vêm sugerindo que as escolas tentem se adaptar e participar dessa dinâmica, procurando democratizar o acesso à tecnologia para colher os frutos que esse novo contexto pode oferecer. Ou seja, sugerem que as instituições de ensino, públicas ou particulares e dos diferentes níveis, coloquem como ferramentas disponíveis, como assunto de discussões e reflexões e como prática cotidiana de aula o computador, a internet e todas as demais possibilidades de acesso à informação e ao conhecimento que as novas tecnologias são capazes de garantir.

Contudo, uma pesquisa realizada em setembro de 2007 e publicada pela revista “Sociedade e Educação” no final do ano passado revela que o uso do computador pode, ao contrário do que pregam as premissas atuais, diminuir o desempenho escolar dos alunos. O estudo foi realizado por Tom Dwyer e Jacques Wainer, ambos professores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A pesquisa seguiu uma metodologia simples. Os autores cruzaram os dados socioeconômicos dos alunos que participaram do Saeb em 2001 com as respostas oferecidas pelos estudantes a uma questão específica apresentada pelo mesmo Saeb sobre a freqüência do uso do computador para fazer as lições de casa de matemática e de português. Nesse caso, havia quatro alternativas de resposta: “uso sempre, quase sempre, raramente e nunca”. O cruzamento estatístico dos dados trouxe informações novas e no mínimo instigantes para o cenário educacional. “Os resultados demonstram que para os alunos de todas as séries e para todas as classes sociais o uso intenso do computador diminui o desempenho escolar. Para alunos da 4ª série, das classes sociais mais pobres, mesmo o uso moderado do computador piora o desempenho nos exames de português e de matemática”, detalha Wainer.

Repensar o uso do computador?
Tais conclusões levam o especialista a considerar que “as evidências de que usar computador é bom para o desempenho dos estudantes são pouco convincentes e provavelmente não muito significantes”. Ou seja, para os autores do trabalho, a cantilena que defende a informatização do ensino a qualquer custo precisa ser pelo menos confrontada. Por isso, segundo Wainer, é chegada a hora de repensar o papel do computador no ensino – seja por parte dos estudantes, seja por parte dos educadores.

Também professor da Unicamp, o engenheiro José Armando Valente concorda que é preciso olhar com muita atenção para o uso dos computadores como ferramenta de ensino e aprendizado. Não exatamente porque eles piorem o desempenho escolar, mas para que essa utilização possa ser assumida de fato e de forma pedagógica como algo pensado, sistematizado e como parte integrante da filosofia educacional do país. Valente é professor do curso de Multimeios, Mídia e Comunicação e pesquisador do Laboratório de Informática Aplicada à Educação. Para ele, deve haver combinação e colaboração entre os variados agentes da educação para que o computador passe a fazer parte da escola de uma forma quase natural, como acontece atualmente com a lousa e o giz.

Ele conhece a pesquisa realizada por Wainer e Dwyer e identifica um ponto que considera problemático no estudo. “Os autores falam do uso do computador, mas não explicam em momento nenhum como se dá esse uso”. Ou seja, segundo Valente, não dá para dizer que usar o computador piora o desempenho sem dizer que tipo de uso os alunos estão fazendo dessa ferramenta. “Claro que há formas e formas de lidar com a tecnologia. Umas são mais apropriadas e beneficiam o processo de ensino e aprendizagem e outras de fato acabam comprometendo esse trabalho”.

Tecnologia a favor da educação
Valente acredita que a informatização do mundo é uma realidade contra a qual não adianta brigar. Aliás, ele vai além e afirma que o computador e a internet podem ser instrumentos de inclusão e de cidadania. Para ele, a grande questão não está mais em discutir o que o computador pode fazer, mas sim avaliar como utilizar essa tecnologia a favor da educação, e não contra ela. Por isso talvez não seja exagero dizer que as crianças que responderam à prova do Saeb talvez estivessem fazendo uso inadequado do computador.

Quando indagado sobre por que afinal usar computador estaria prejudicando os alunos, o professor Wainer argumenta que, embora esse não tenha sido o objeto de sua pesquisa, é possível sugerir cinco possíveis razões para essa situação. A primeira explicação diz que o uso de monitores de um modo geral (de TV ou de computador) faz mal. Essa é a vertente mais aceita pelos educadores que seguem a Pedagogia Waldorf. Outra razão – e essa bem conhecida e combatida por professores de todas as linhas educativas – é a do hábito de encontrar a informação na internet e simplesmente copiar e colar esses textos. A terceira hipótese é muito parecida com essa, mas diz que o problema não é o copiar, mas sim o colar. Wainer lembra que é extremamente comum os estudantes reproduzirem informações, muitas vezes na íntegra, e que isso se manifesta desde o princípio da existência das escolas. “A diferença é que antigamente a gente escolhia bem o que ia copiar e tinha um trabalho de ler e reescrever aquilo, de forma que alguma informação ficava ali retida. Hoje não, o aluno copia e cola sem nem ler o que está ali”, diferencia.

As duas últimas explicações apontam para áreas a serem desbravadas por pesquisadores e educadores. Uma indica que o excesso do uso de computador pode ser sintoma da ausência dos pais na vida escolar do aluno e, segundo o pesquisador da Unicamp e autor do estudo, há até perguntas no Saeb que dão conta desse contexto; portanto, seria um dado a ser investigado com mais consistência. A outra dá indícios de que o Saeb não estaria conseguindo avaliar corretamente certas habilidades conquistadas pelos alunos que usam computadores. Ou seja, “ele talvez não saiba mais escrever à mão e acertar a ortografia, porque o computador corrige os erros automaticamente, e talvez não faça mais contas de cabeça, porque no Windows tem uma calculadora disponível”, provoca Wainer.

Preparação dos professor
Valente também procura analisar os motivos pelos quais o uso do computador poderia estar afetando o desempenho dos alunos. É enfático ao apontar a primeira causa do problema. “O professor não está sendo formado, preparado para lidar com o computador. Nem com seu uso pessoal, nem com o uso por parte dos alunos. E enquanto o educador não dominar isso, o uso de informática será deficiente”. Completa dizendo que há muito tempo ele e outros pesquisadores dessa área de fronteira entre informática e educação vêm fazendo esse alerta, mas que nenhuma mudança significativa está sendo adotada nem nas escolas públicas nem nas privadas. O desejo de Valente é que o sistema educacional como um todo se sensibilizasse para essa nova realidade e que começasse a encarar isso como uma possibilidade de crescimento para todos os atores e agentes educacionais. Mas a dificuldade, segundo ele, é que as partes envolvidas não pensam da mesma maneira. Ou seja, o Ministério da Educação e as Secretarias Estaduais da área agem numa direção, as diretorias de ensino vão por um outro caminho, os professores, sobrecarregados, não conseguem trabalhar mais do que já trabalham, e os alunos se aproveitam dessa ausência de norte e de rumos para utilizar o computador e a internet de uma maneira desregrada e nada pedagógica. “Os agentes todos, incluindo os pais e a família, precisam trabalhar de maneira coordenada, com um objetivo em comum, que é informatizar para educar melhor. Sem esse trabalho conjunto vai ficar sempre uma coisa capenga”, garante.

Segundo o especialista, os exemplos de trabalhos coordenados que deram certo na área de educação são ainda muito pontuais; por isso, para provar que trabalhando dessa maneira integrada a informatização traz bons resultados, Valente lança mão do exemplo dos bancos. No final dos anos 1980, os bancos brasileiros entenderam que era hora de informatizar todos os processos e fazer uso dos benefícios da computação. “Para isso, não criaram um quiosque com computadores no meio da agência e disseram: olha, aqui estão nossos computadores. O que eles fizeram foi informatizar tudo, tudo mesmo. A mentalidade passou a funcionar amparada nessa possibilidade da informação em rede e em tempo real”.

Em contrapartida, as escolas, em geral, reservam uma sala para os computadores; em sistema de rodízio, os alunos têm acesso às máquinas – e a esse cenário se resume muitas vezes a participação da escola na vida digital dos estudantes. Há eventualmente lá nessa sala um monitor que entende de informática, mas não de educação – e menos ainda dos conteúdos trabalhados em classe. Durante a aula no laboratório o professor fica separado da turma, de forma que os trabalhos acabam completamente desconectados. Ainda segundo Valente, trabalhos desconectados não levam nem alunos nem professores para uma experiência digital rica.

Mudar o sistema
Para que uma mudança de mentalidade aconteça, na visão do professor Valente, falta a ação de um coordenador. “Alguém, ou algum órgão, que tome para si a responsabilidade de mudar o sistema e inserir o computador como parte integrante desse mecanismo vivo que é a educação”, propõe, embora admita que o sistema educacional é diferente de uma empresa onde se baixa uma norma num dia e tudo muda no dia seguinte. Mas ele insiste: deve começar com a atuação de um coordenador. O especialista admite que uma transformação com essas proporções alteraria inclusive os alicerces do sistema educacional, “porque nosso currículo foi pensado para lápis e papel e não para ser trabalhado com computador e é essa passagem que está sendo feita, às vezes de forma equivocada, inclusive se acreditando que dá para substituir um professor por um computador. E não dá”.

A mudança, portanto, quando acontecer definitivamente vai mexer em toda a estrutura. O educador não terá mais o papel apenas de transmissor da informação, ele terá de ensinar os alunos a navegar nessa nova realidade. Em outras palavras, o docente vai precisar mudar o enunciado das questões e também sua forma de avaliar o aluno. O exemplo dado pelo professor Wainer sobre a cola digital cabe perfeitamente aqui. No tempo do lápis e do papel, a tarefa era pedir para os alunos pesquisarem algo e trazerem aquilo que tinham conseguido achar. Por isso o aluno ia à biblioteca, encontrava o livro, copiava determinados dados e levava aquele documento para o professor. O educador, na verdade, queria saber se o aluno sabia pesquisar, encontrar as informações, se sabia o método de busca em um atlas, numa enciclopédia. Se continuar pedindo isso hoje, o aluno rapidamente se conectará à internet, digitará num site de busca a informação desejada e receberá milhares de textos e imagens sobre aquele assunto. É claro que a ação automática do aluno é copiar aquela informação e colar. Não faz mais sentido. Hoje, em tempos de buscas digitalizadas, “cabe ao professor modificar o enunciado e em vez de só pedir os dados, pedir uma análise daquela informação, uma comparação, um exemplo bom, outro ruim”, ensina Valente. Ou seja, é preciso estimular o estudante não apenas a procurar, mas a pensar, organizar, sistematizar e lidar com os dados de forma crítica, construindo seu próprio conhecimento. Parece fácil, mas Valente alerta: trata-se de uma mudança de paradigma.

Para concluir, Valente sugere que, já que as autoridades da educação não tomam para si a responsabilidade de colocar os educadores na era da informação, os sindicatos de professores passem a assumir esse desafio. Segundo ele, essa talvez seja a melhor maneira de defender os associados e de prepará-los para a vida digital de uma forma segura, consciente, adequada e sem abusos. Valente acredita ainda que essa estratégia colocaria a discussão em um outro patamar, com professores mais preparados, o que garantiria não apenas inclusão digital, mas educacional e social para os alunos.

Texto publicado no site do Sinpro (www.sinprosp.org.br)

 

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